GLADIAMOR <3
Perdão se me faço prolixo ao me despedir desse meu amigo muito muito querido
Quando voltei pro R7 depois de uma temporada editando a versão paulistana do jornal Meia Hora, fui pra mesma editoria que tinha ajudado a inaugurar, que era o trabalho que eu amava. Era eu e mais um estagiário.
Esse estagiário, porém, foi a melhor coisa que podia ter me acontecido na vida.
Felipe Gladiador era o nome dele e a gente se deu bem rapidinho – mérito nenhum pra mim: a pessoa teria que ser muito pau no cu pra não se dar bem com um cara como o Gladiador. Lembro que ele ficou super sem jeito de falar pra mim que, apesar do trabalho na nossa editoria, a intenção dele era trabalhar com a parte de entretenimento do portal e, por isso, às vezes, ele se oferecia pra cobrir algum show ou algum evento e queria saber se isso seria um problema pra mim porque, se fosse, ele não iria. Falei que, não, que era pra ele ir, sim, fazer tudo o que dessem espaço pra ele fazer e pra ele não se preocupar com nada porque, nem que eu precisasse trabalhar de casa, era pra ele ir sempre escrever a respeito do que ele gostava.
Depois eu soube que rolou até bolão na redação pra ver quanto tempo ele ia durar trabalhando comigo e até dá pra entender que alguém possa ter pensado isso, afinal a gente era diametralmente diferente: eu, um velho punk gordo fumante, e ele, um garoto de vinte anos, little monster, educado e muito muito muito sensível. Eu teria trabalhado a vida toda com ele se isso fosse possível.
Lembro que um dos editores de Entretenimento, já sondando uma possível contratação, veio me perguntar como era trabalhar com ele e ficou até meio surpreso quando eu respondi que era a coisa mais fácil do mundo, porque ele não dava dor de cabeça nenhuma e fazia as coisas de um jeito completamente diferente do que eu faria. “Mas você não manda ele fazer as coisas do seu jeito?”, ele me perguntou. “Não, porque, pra isso, já tem eu”, eu respondi.
Gladiador, que parece codinome de lutador de MMA, era sobrenome mesmo. Lembro que a primeira vez que alguém veio fazer graça com o nome dele, peguei o telefone, disquei qualquer coisa e falei “Oi, Guerreiro, tudo bom?” – Guerreiro era o diretor geralzão, o chefe pica das galáxias da gente – “Tem um cara aqui fazendo piada com o nome do Gladiador, Guerreiro”. O cara sumiu na mesma hora.
Apesar de Gladiador (Glads, para a maioria), pra mim, ele sempre foi “Fê”. Ele, por sua vez, me chamava de um jeito só dele, como se tivesse uma lombada entre o “tuc” e o “ori” e ele falava como se fosse o Bob Esponja atravessando essa lombada. Não sei descrever, mas era assim: o “tuc” era a flecha que crava no alvo e, no “ôri”, a flecha escorre até o chão.
Esses dias lembrei da camiseta que ele me deu de presente, aquela com a foto do nocaute do Muhammad Ali no Sonny Liston (tava lendo a biografia do Liston) e me deu vontade de ligar pra ele e contar o tanto que aquela camiseta tinha sido importante. A mensagem era: “dei entrevista pra Globo usando a camiseta que você me deu” e eu queria contar pra ele que sempre achei que foi por causa daquela camisa que o Maguila gostou de mim e me deixou contar a história da vida dele. Foi por causa disso, inclusive, que escolhi usar essa camiseta no meu depoimento na série “Maguila - Prefiro Ficar Louco a Morrer de Fome” pro Rafael Pirrho: porque ela acabou virando personagem.
Ele me deu essa camiseta de presente quando troquei de plantão com ele no fim do ano e ele conseguiu aproveitar uma promoção louca e foi pra Nova York com o irmão dele. Quando perguntou se eu queria que ele trouxesse alguma coisa, respondi “qualquer coisa do Muhammad Ali”. Ele contou que, no meio da viagem, passou por não sei onde e a camiseta praticamente surgiu diante dos olhos dele, na vitrine de uma loja e, na hora que ele viu, pensou “é essa aqui”. Outro presente que ele trouxe de viagem pra mim foi uma camiseta da seleção da argentina, porque contei pra ele que meu apelido de infância era Maradona. Pra ele, ele comprou uma do Messi e, mesmo depois que a gente não trabalhava junto, a gente combinava e vinha usado cada um a sua, um Maradona e um Messi, lado a lado na redação. O mais louco é que foi com essa camiseta que eu fui receber o Falconi no aeroporto, quando ele veio pra São Paulo visitar o Maguila quase 30 anos depois de terem se enfrentado no ringue.
Trabalhando junto, a gente inventou um universo dentro da editoria em que existia um “editor” (que era aquele que todos os redatores zoavam nos textos) e tinha a “estagiária gorda e virgem” (que era eu), que veio de um comentário de um leitor indignado por causa de uma legenda que eu escrevi chamando de gato um cara (era gato mesmo) que tinha pescado um peixe-gato. Às vezes, eu cismava que ia escrever que nem ele e ele, do outro lado, fazia a mesma coisa, escrevia fingindo que era eu e, depois, a gente rachava de rir revisando o texto um do outro. Teve coisa que a gente fez ali e que, depois, chefe nosso ganhou grana dando curso pra ensinar as pessoas a fazerem parecido e, na real, a gente tava brincando de Stan Lee.
Teve também o lance de quando ele trouxe uma foto de infância dele, bichinho da Parmalat e, apesar dele estar vestido de vaca, eu cismei que era panda, porque ele amava pandas e também amava Star Wars, de modo que acabou sendo nomeado meu “pandawan”. A foto, aliás, entrou em notícia, em galeria e foi até impressa e exposta no mural de avisos que só o RH podia usar e a gente teve que tirar de lá puxando com régua antes que ele tivesse um treco de ansiedade achando que iam brigar COM ELE por ter posto a foto lá e eu disse pra ele “de todas as pessoas, você é a ÚNICA que jamais colocaria essa foto lá”. Ele achava que podiam brigar com ele, mas era impossível brigar com ele. O Fê era dessas pessoas que, se fulano não gosta dele, isso diz mais sobre o fulano do que sobre ele.
Dá pra ficar o dia todo aqui lembrando só coisas legais e engraçadas que passei com ele, mas tem uma que é importante dizer: ele nunca falava mal de ninguém. Ele, inclusive, se incomodava quando alguém falava mal de outra pessoa na frente dele porque, se fulano fala mal de beltrano na sua frente, na frente de beltrano esse fulano vai falar mal de você. Ele era mestre em me fazer mudar de opinião a respeito de gente que eu, por birra, achava chata porque, sim, ele sempre achava coisa boa em qualquer pessoa, por pior que ela fosse.
Outra vez, inventaram alguma coisa de decorar as mesas da redação e ele se empolgou e acabou me empolgando junto porque, na época, a gente trabalhava junto, mesa colada com mesa. Ele fez da mesa dele a coisa mais fofa do mundo, cheia de pelúcias, pôneis, princesas e o caralho. Eu, por outro lado, celebrei o centenário de Nelson Rodrigues fazendo da minha mesa uma tragédia carioca gore, com calçadão de Ipanema, membros decepados e sangue pra caralho. Chegamos os dois na final e a gente combinou que, independentemente de quem ganhasse, a gente ia dividir o prêmio, que era uma viagem com acompanhante para Buenos Aires. No fim, ele ganhou, mas nunca deram o prêmio pra ele e ele nunca reclamou. Quando ele foi, foi por conta, que foi quando ele trouxe a camiseta do Maradona.
Ele era tão foda que, quando eu tirei férias pela primeira vez, ele – estagiário – assumiu a bronca e trabalhou como se fosse editor. Até botaram o Rodson pra ajudar ele, o que foi uma bênção porque o Rods é legal pra caramba, é bom de serviço e não teve o menor melindre de acatar as orientações dele, porque, mesmo sabendo o que fazer, ele teria educadamente assentido em cumprir com uma hierarquia que não havia nem entre ele e eu. Um dia antes de eu voltar, ele fez um cartaz vermelhão tipo “keep calm (a minha foto no meio) Tucori is coming” e me mandou.
Ele era foda pra caralho.
Nunca vou esquecer de todas as vezes que, saindo do trabalho, a gente voltava junto e parava pra conversar na conexão da República e quase perdia noção da hora falando a respeito de toda e qualquer coisa, filmes, livros, música, quadrinhos, animes ou sobre roupas minhas que eram mais velhas do que ele, que nasceu em 1991.
Teve uma vez que ligaram no ramal dele e, na maior grosseria, pediram pra ele chamar o Augusto Liberato (vulgo Gugu) e ele ficou sem ação. Quando me contou isso, passei a atravessar a redação, pro meio do pessoal de Entrenimento, onde o Vilson disfarçava a voz, ligava no ramal dele pedindo pra falar com o Augusto Liberato e eu, fingindo que batia pauta alguém, ia narrando as reações dele em tempo real. Nunca contei pra ele que era trote.
A última vez que vi o Fê foi quando ele passou pela minha rua na mesma hora que eu tava saindo pra ir pro boxe, mas foi impossível fazer contato com ele porque ele estava completamente maravilhado admirando o Snow, o cachorro do restaurante do lado de casa, que recebia os clientes na porta. Eu me arrependo muito de não ter chamado ele naquele dia e me atrasado pro boxe, mas a real é que eu preferia ficar olhando ele exercer aquela infinita capacidade que ele tinha de se maravilhar com as coisas, sobretudo coisas lindas, como era o caso do Snow. Mandei mensagem pra ele depois e contei quando, onde e como tinha visto e ele e a resposta dele foi “aquele cachorro não é MARAVILHOSO? PARECE UMA NUVEM!”
Essa capacidade de se maravilhar se mostrou com todo o esplendor quando ele se apaixonou: era como ver todo um universo nascendo num big-bang de amor. Tem uma música que ele fez nessa época que eu salvei em mp3 quando ele postou e, mais tarde, quando tudo já tinha mudado e ele ficou horrorizado em saber que eu tinha guardado. Lembro de uma vez que a gente conversou sobre um conto chinês que meio que servia de consolo pra nós. Era a história de um rei que vai visitar outro rei e leva pra ele uma caixa de merda pra dar de presente e recebe, em troca, uma caixa cheia de flores, cuja moral era “cada um dá aquilo que tem”. E ele era exatamente esse tipo de cara que era capaz de dar as flores mais lindas pra quem deu bosta pra ele, mas não entendia de jeito nenhum por que elas jogavam as flores dele na privada e davam descarga (porque quem presenteia os outros com merda tem essa peculiaridade de sempre achar que está sendo pago na mesma moeda). A gente achava que, de tanto dar pérolas aos porcos, eles morreriam de congestão, mas não. Eles não morrem porque eles são muitos e, no fim, a gente acaba tendo a impressão de que nossas flores são merda mesmo e isso deixa a gente triste pra caralho.
Pra encerrar, deixa eu contar do dia em que quase matei ele de verdade. Teve uma época, em que ele precisou passar por uma cirurgia, pegou licença e ficou em casa sem trabalhar porque a recuperação era complicada. No tempo em que ele ficou fora, uma celebridade da casa tinha comemorado o aniversário dela dando lajotinhas de chocolate da Kopenhagen pra toda a redação e, como eu tinha chave na minha gaveta, pedi pra ficar com um pacotinho a mais porque era pra guardar pro Gladiador até ele voltar. Quando ele voltou, dei o pacote de lajotinha pra ele, ele amou, meteu logo uma na boca e, antes de dar a primeira mordida, perguntou de boca cheia “é í anela?”. Sim, é de canela! Não é uma delícia? Ele abriu a boca e deixou a lajotinha babada cair pra fora, jogou no lixo e correu pro banheiro pra lavar a boca, Eu não sabia, mas ele era alérgico a canela e, se ele tivesse dado a primeira mordida, perigava a garganta dele fechar e a gente ter que chamar paramédico na redação pra socorrer ele. Quando voltou do banheiro, ele distribuiu as lajotinhas dele pra redação, virou pra mim e, dando risada, perguntou: “você tá querendo me matar, é?”.
Não, meu amigo, eu não queria. Na real, meu desejo era de que você vivesse pra sempre, mas eu te entendo: nesse mundo, não.
Pra todo mundo que realmente amou esse cara, deixo aqui a música apaixonada que ele fez porque acho que, pra gente que tanto amou esse cara, ela ganhou um novo significado.



Porra Tucori, tô chorando e xingando. Como assim o cara morreu? Pode não. Recebe aí meu abraço.
Caramba, Tucori... Esse texto foi aquele abraço que desata o nó da garganta e deságua o choro. O Gladiador sempre foi um ser humano melhor do que todos os outros.